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NOMES DE LUGAR: CONFIM
Author(s): Massimo Cacciari
Source: Revista de Letras, Vol. 45, No. 1 (2005), pp. 13-22
Published by: UNESP Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho
Stable URL: https://www.jstor.org/stable/10.2307/26459823
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NOMES DE LUGAR: CONFIM1
Massimo Cacciari2
· RESUMO: Neste artigo, estudamos o conceito de confim e sua relação com o tempo presente.
· PALAVRAS-CHAVE: Confim, espaço, globalização, limite, lugar
Confim se pode dizer de muitas maneiras. Em geral, o termo parece indicar a “linha” ao longo da qual dois domínios se tocam: cum-finis. Dessa forma, o confim distingue, tor- nando comum; estabelece uma distinção determinando uma ad-finitas. Fixado o finis (e em finis ressoa provavelmente a mesma raiz de figere), “inexoravelmente” se determina um “contato”. Mas - antes de desenvolver essa ideia essencial, que concresce na nossa linguagem - entendemos por confim limen ou limes? O limen é a soleira, que o deus Limentinus
1 Original em italiano: “Nomi di luogo: confine”, publicado em Revista aut aut, 299-300, settembre-dicembre 2000, Milano, p.73-79. Traduzido para o português por Giorgia Brazzarola e revisado por Silvana Gaspari. 2 Massimo Cacciari, nascido no ano de 1944 em Veneza, é um filósofo que possui uma ativa participação na vida política italiana. Como fruto de sua militância na esquerda italiana foi deputado no parlamento, entre 1976 e 1983, e prefeito de sua cidade natal entre 1995 e 2000. Professor de Estética na Università Vita-Salute San Raffaele, é membro de várias insti- tuições filosóficas européias, sendo uma delas o Collège de Philosophie de Paris. O centro de sua reflexão filosófica se coloca na crise da racionalidade moderna. De sua obra, praticamente inédita no Brasil, destacamos Krisis (1976), O ícone da lei (1985), Homens póstumos (1989), O anjo necessário (1986), Do início (1990), Diálogos sobre a solidariedade (tradução brasileira de 2003), Da coisa última (2004) (N. do E). E-mail: uhsr.presidefilosofia@hsr.it.
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guarda, o passo através do qual se penetra em um domínio ou se sai dele. Através da soleira, somos acolhidos ou e- liminados. Ela pode se dirigir ao “centro”, ou abrir para o o- limite, para aquilo que não possui forma ou medida, “onde” fatalmente nos perderíamos3. Limes é, ao invés, o caminho que circunda um território, que engloba sua forma. Sua linha pode ser oblíqua, por certo (limus), acidentada, todavia, ela equilibra, de uma certa forma, o perigo representado pelas soleiras, pelos passos, pelo limen. Onde bate o acento quan- do dizemos confim, limite: sobre o continuum do limes, do espaço de confim, ou sobre a “porta aberta” do limen? E, todavia, não pode existir confim que não seja limen e ao mes- mo tempo limes. A linha (lyra) que abraça em si a cidade deve ser tão bem fixada, deve representar um finis tão forte, para condenar aquele que venha a ser e-liminado ao de-lírio. Delira aquele que não reconhece o confim ou quem não pode ser acolhido por ele. Mas o confim nunca é uma fronteira rígida. Não somente porque a cidade deve crescer (civitas augescens), mas porque não existe limite que não seja “que- brado” por limina, e não existe confim que não seja “conta- to”, que não estabeleça também uma ad-finitas. Em suma, o confim foge de toda tentativa de determiná-lo univocamente, de “confiná-lo” em um significado. O que, pela raiz do nome, deveria nos aparecer solidamente fixado (como os ermos do deus Termine nos confins dos campos), se revela, por fim, indeterminado e inalcançável. E assim é maximamente por aqueles “imateriais” confins que fazem “tocar” consciente e inconsciente, memória e olvido …
A dificuldade de definir confim, porém, não pode fazer com que se pare de tentar. O confim não é e-liminável. Ne- cessária se torna a nossa busca por um lugar onde poder
3 O o-limite, apeiron, é condição originária do aparecer dos lugares. Sua ideia é análoga à de chora, do ‘lugar’ de todas as coisas que têm origem (Timeo 52 b). O Raum, o espaço enquanto Freigabe von Orten, libera doações de lugares, de Heidegger, o espaço como criar-espaço aos lugares, lembra, de uma certa forma, essa ideia. Mas nos limites do presente escrito não se poderá enfrentar a relação topos-chora, nem todos os problemas que o seu repensar cria em Heidegger.
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permanecer, que um limes possa custodiar. Nós construímos - edificamos para corresponder a essa necessidade. Nenhum “nomadismo” pode reduzi-la ao silêncio: os nomades levam consigo o próprio lugar, que é o tapete, na riqueza de seu simbolismo4. Eles entram no tapete como nós entramos (en- trávamos?) em casa. Também um objeto, um “talismã”, pode exercer o papel de lugar, acompanhar o nômade e definir, em qualquer lugar, o Lebensraum. Essa necessidade não é suprimível, mesmo assim satisfazê-la parece uma árdua ta- refa. Não podemos morar (e então edificar) - não temos ethos - enquanto não traçamos confins, mesmo assim parece im- possível defini-los rigorosamente.
Parece haver uma preciosa marca na Física de Aristóteles que nos permite desenvolver a nossa aporia. A idéia de confim, de fato, reconduz, como vimos, àquela de lugar; o confim define, mesmo que problematicamente, um lugar. Mas o que é lugar? Necessariamente, quem se ocupa da physis terá que buscar uma definição dele. “Todos de fato acreditam que as coisas que são sejam em algum onde (pou)” (208a, p.29). Pertence ao ente “residir” em um topos. Mas saber o que seja topos é questão da maior dificuldade, é uma busca sem fim de “muitas aporias” (208a, p.32-33). Mesmo se parece ter dimensões, topos não é matéria ou corpo (209a, p.16-17), e nem mesmo será forma (já que é evidente que os corpos não assumem a própria forma em virtude dos lu- gares onde se encontram), e nem mesmo é princípio ou fim do movimento. Será que os entes se encontram em um lugar como corpos num vaso? A relação entre entes e lugar é representável como aquela entre um continente e aquilo que ele contém? (209b, p. 28-30). Mas os corpos não “se cho- cam” contra o lugar, como os objetos em um vaso. Conti- nente e conteúdo são de natureza diferente, mas não parece ser a mesma coisa na relação entre coisa e lugar. Nem pode- mos afirmar que o lugar seja o intervalo entre conteúdo e
4 Existem páginas belíssimas sobre o tapete como moradia, em relação ao tema fenomenológico geral do Lebensraum, S. Bettini, “Poetica del tappeto orientale”, em Tempo e forma. Scritti 1935-1977. Quodlibet, Macerata, 1996.
continente (um diastema com papel de metaxy, 211b, p.7- 8), pois esse intervalo ou não existe ou é continuamente “su- perado” pelo movimento da coisa. Resta somente, então, uma noção possível de topos: ele é o limite (peras) do conti- nente, mas enquanto este toca de i-mediato (sem diastema- metaxy) o conteúdo (212a, p.6). O lugar, isto é, são as pró- prias extremidades em i-mediato contato, ta eschata (212b, p.8). Isso resulta na impossibilidade de definir o lugar sem referência ao corpo; não existe nenhum topos “desabitado”, porque a sua noção implica o eschaton do ente que insiste nele. Topos não poderá, por isso, se entender como uma extensão uniforme, equivalente, vazia, nunca poderá se con- fundir com uma idéia a priori de espaço.
Mas como conceber aquele contato entre eschata? Se- ria possível entendê-lo como uma linha imóvel? Já se viu como não se sustenta a comparação com o vaso. Os entes não definem o próprio confim chocando-se contra ele, como se se tratasse de um muro impenetrável, abstratamente sepa- rado por eles. Cada ente é certamente fechado em um seu limite, mas é no seu movimento que esse limite, esse extre- mo ou último do ente toca outras extremidades. O continen- te não é outro que o eschaton do outro corpo. Passo a passo o lugar se define no con-fim do contato entre os corpos, onde cada um é, ao mesmo tempo, conteúdo e continente, limitante e limitado. Topos aparece, então, como um outro nome para dizer o limite extremo do ente, o ponto ou a linha onde ele entra em relação com o outro de si, onde ele “se oferece” integralmente ao contato com o outro.
Mas, se é assim, o lugar não é senão o próprio confim, a orla extrema do ente, ou seja, o seu fim comum com o outro de si. Não podemos definir o lugar senão como eschaton do ente, isto é, como seu confim. O confim é a essência do lugar. O lugar é onde a coisa faz experiência do próprio limes, da linha que a contém, mas que, ao mesmo tempo, conten- do-a, a coloca em relação. O lugar é onde a coisa “torna-se” contato e relação. Mais uma vez, a linguagem sabe “pensar” esse problema. Não chamamos de topos o tema fundamen- tal de um discurso? Não chamamos topoi aqueles lugares de uma tradição, onde ela parece concentrar o próprio último significado? Não é topos o eschaton ou o akme de uma for-
mação cultural? E desta forma a palavra alemã Ort designava originalmente a ponta, a extremidade, a quina de um objeto, ou aquele lugar, aquele país que estão no último confim de um território. Lugar é “onde” o lugar termina, e o lugar tem seu fim onde os entes que contém chegaram aos seus limites, se apresentam segundo as suas figuras extremas. Por isso, o confim não delimita um lugar pelo externo, como alguma coi- sa que contém os entes (como um continente, ou seja, um vaso); o confim constitui o lugar. O lugar insiste-consiste no seu confim; ele é, por assim dizer, concebível somente do ponto de vista escatológico.
Topos é o “onde” voltado para o próprio confim. A topologia, então, não é separável da “tropologia”. Definir o lugar é descrever o movimento dos entes nele “contidos” ao seu eschaton, sua conversio ao próprio último limite.
Da-sein, ser-aqui, significa ser-para, serem-voltados à última borda de si, ser pelo próprio fim. Topos et tropos convertuntur.
Mas o fim é con-fim, o contato com o outro. O extre- mo limite de um ente, isto é, que maximamente o define, é também o comum, o que ele tem de essencialmente comum com o outro de si. Nenhum confim, então, pode fechar o lugar. Nenhum confim pode e-liminar o outro ou excluí-lo, porque o implica na sua própria essência. Que o nome topos seja confim significa que ele é termo de relação, ou melhor, nomen agentis: lugar é o voltar-se dos entes ao seu próprio eschaton. Verifica-se como não podemos evitar o limite do nosso próprio corpo quando este voltar-se tem fim no próblema do outro, no comparecer do outro que nos toca, e que de nenhuma maneira podemos evitar.
Exatamente porque o lugar “está” no confim, nenhum lugar é abstratamente separável. No ser-confim o lugar tor- na-se limen. Se o lugar envolvesse a própria soleira, murasse o seu confinium, e então não soubesse reconhecer no outro o con-finis, o que é próximo confinando, o ad-finis, o lugar não seria mais lugar. Eliminando o confim-contato, elimina-se o lugar. A idéia de que o lugar possa se definir por exclusão se remete, com evidência, à sua imagem como vaso, continen- te, algo de separado dos corpos que o habitam e de seus movimentos. Mas o lugar não pode ser entendido como a
orla extrema desses corpos, eschaton que sempre subsiste, mesmo se continuamente lhe muda o desenho, eschaton em i-mediato contato com um outro extremo, com a ponta de outros corpos, necessariamente arriscando a relação com eles.
Por isso, quanto mais nítida se desenha a linha de con- tato, o confim, quanto mais ele é soleira, é limen. Nenhum corpo pode transgredir o próprio limite, sair de si, mas é o confim a fugir de toda rígida determinação, o contato para recusar todo significado univoco. Não são os corpos a trans- gredir, mas é o próprio confim que sempre transgride. A trans- gressão é o modo de ser do confim, já que o confim implica polemos entre os diferentes (segundo todas as possíveis acepções de polemos) - mas o confim sempre se determina- rá novamente, exatamente porque os corpos não podem ul- trapassar o próprio eschaton. O confim não é transgredível, pois é transgressão.
Situação difícil e paradoxal: não temos outra maneira para corresponder à necessidade original de habitar um lugar próprio, que concebê-lo ao limite, como confim. E o confim é através do que se produzem relações e conflitos, através dele o lugar é constantemente colocado em perigo, ou seja, recolocado no caminho. Fixar o lugar procurando fechar-lhe o confim não curará o nosso habitar do perigo, não constituirá nenhum seguro ethos, mas exatamente o contrário. Fechar o lugar não é, de fato, protegê-lo ou defendê-lo, mas anulá-lo, significa violentar-lhe a natureza e o próprio étimo, não reconhecê-los. Todas as tentativas voltadas a “fortificar” o lugar, longe de torná-lo seguro, golpearão mortalmente todo habitar, já que um lugar que define por exclusão de outro, que não quer que o outro o toque, que exige o seu confim imune ao outro, se transforma inevitavelmente em prisão para aque- les que ali residem. Mas o mesmo êxito se teria se nós pen- sássemos em “exaltar” a “transgressão” implícita na idéia de confim, simplesmente com a anulação dele. Muitas retóricas êxodo-nomádicas, muitos cosmopolitismos copiados de ou- tros representam exatamente a outra face das claustrofobias “dos locais”. Anulando o confim, nós anulamos a idéia de pró- prio corpo, nos eximimos da compreensão de lugar como limite extremo do nosso corpo vivente - reificamos o lugar e impedimos toda autêntica criação da possibilidade da relação.
Ontologicamente, essa possibilidade pode enraizar-se somente no ser-confim do lugar, no ser o lugar “onde” os con-fins se tocam. Pode haver relação, já que se dá o confim. Não have- rá relação, portanto, mas confusão de corpos indiferentes em um espaço homogêneo.
E, todavia, - exatamente essa parece ser a atual situa- ção: a criação de um espaço único indiferente ao qual pare- cem contrapor-se identidades fechadas; na realidade, um lu- gar que se defina eliminando seu limen é um lugar que se nega e assim torna-se fator, agente daquele mesmo proces- so ao qual pretenderia opor-se. O lugar idiotés, que fecha em si os entes que o constituem, cujos entes não sabem se ex- pressar ao seu limite, é um todo com a idéia de um espaço indiferente (não communis!) a priori. Ambos representam, de fato, o cancelamento do confim. As idolatrias dos locais5 são, por um lado, produto e, por outro, cúmplices naturais da `globalização” abstrata.
Mas o único espaço “habitado” por lugares-não-luga- res, por fantasmas de lugar, onde nenhum confim pode sub- sistir e, por isso, nenhuma relação se determina, é realmente concebível? Pode o globo ser entendido sem polaridade? Pode o globo assumir a imagem de uma grande planície, que pode ser percorrida livremente em todos os sentidos - uma espé- cie de equivalente do espaço aéreo (ao qual, para alguns, os mortais terrenos são mesmo assim destinados?) Ora, há muito tempo sabemos que a época na qual os Estados atuavam em espaços bem circunscritos, sobre Schauplätze aparentemen- te bem designados, a época da soberania territorialmente de- terminada acabou para sempre. Mas isso poderá significar o império de um Leviatã6 desarraigado de todo fundamento ter-
5 Ou, melhor dizendo, os rituais vazios por meio dos quais se fingem “autonomias locais” que lutam somente por ser “espaços salientes” da própria globalização (a partir do momento que essa, ainda, deve, por fim, “se fixar” “tomar forma” em algum lugar … ).
6 Qual forma política poderá assumir a “globalização”? Aquela de Weltstaat profetizada por Jünger? Mas já não é velho o termo “Estado” em relação à total imanência do domínio da Técnica? E todavia - poderá essa forma de soberania absolutamente nova evitar se representar politicamente, poderá dominar i-mediatamente, sem representação de si?
reno e capaz de resolver em si toda polaridade? Não poderia, ao invés, essa mesma época assistir ao surgir de uma nova idéia de lugar-e-confim?
Começamos perguntando-nos: a “crise espacial” do Leviatã contradiz “catastroficamente” a lógica do Estado mo- derno ou representa, ao invés, a sua realização? A universal Mobilmachung contemporânea é o termo da eliminação sis- temática das diferenças de tempo e de lugar, que já represen- tava a “condição transcendental” da soberania do Leviatã. A “globalização” pressupõe a redução sistemática do lugar a idiotismo indiferente e a absoluta soberania do espaço a priori; a “globalização” pressupõe, então, a história inteira do Esta- do moderno, e é por isso ocidentalização do planeta inteiro. A crise do Leviatã coincide com seu pleno “sucesso”.7
Portanto, o destino, a destinação última do Estado cer- tamente não consistia no defender os próprios confins e, nem mesmo, no conceber a idéia de confim segundo os traços que elaboramos. O Estado moderno move em direção ao próprio ultrapassar-se e dessa maneira produz “lugares fe- chados”, transforma o confim em fronteira - fronteiras não tanto ou não mais físico-geográficas ou políticos estaduais, mas culturais, econômicas, ecológicas. A lógica imanente da “globalização” elimina os confins e multiplica as barreiras: se falta o confim, de fato, cessa a relação, que pode ter lugar somente entre individualidades, e a diferença, então, não pode se afirmar senão como desigualdade. E como poderia perma- necer uma soberania planetária, que exibe hoje a econômica como sua única razão, se devesse vir à tona sempre mais claramente que sua promessa de “universal participação” ao econômico bem-estar pelos habitantes do espaço global não é satisfatório? Se devesse resultar sempre mais evidente que a eliminação do confim (entendido como obstáculo, como
7 Isso vale em geral, sob todos os aspectos. O próprio domínio da Técnica é o cumprimento do “deus artificialis”. O nexo entre construção do Estado moderno e racionalidade técnica é constitutivo. E, então, o próprio Político é o fundamento do alastramento da Técnica em seu sentido global. O “por do sol” do Político e inscrito na forma moderna do Político por excelência: o Estado. A época da des-politização e neutralização (Schmitt) é o destino do Político.
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elemento de separação - e, portanto, ignorado na sua verda- de) longe de produzir “igualdade”, produz um proletariado glo- bal, perfeitamente desarraigado? Que a eliminação do confim produz divisões?
O contragolpe a essas aporias da “globalização” não po- deria abrir para uma nova perspectiva sobre lugar-e-confim? Portanto, não uma perspectiva “reacionária”, pelo contrário, o contrário: o confim, como continente estático, e o lugar, como seu conteúdo “idiota”, são a negação do confim e do lugar - e por isso fatores e produtos ao mesmo tempo da “globalização”. A idéia de lugar como do “onde”, que é capaz de alcançar o ente, expressão plena de sua forma, assume, por um lado, “tremendamente” sério a “globalização”: a quer assim até o final, até o extremo, já que não suporta nenhum limite separa- do do eschaton do corpo vivente. Por outro lado, esse corpo se constitui sempre “no limite”, nunca pode se transgredir - e é “aqui”, no seu extremo, que entra em relação com o outro, que supera toda separação. Essa idéia “concorre” com a for- ma da “globalização” e lhe corrói internamente o domínio. Quem poderá atuar uma igual perspectiva? Certamente não serão as potências que se estabelecem por meio de uma religião ou gnose do Um, da igualdade como eliminação do não igual. Po- deria, ao invés, a Europa repensar-se e redesenhar-se segun- do essa definição de confim? É ao redor do problema de seu confim que a Europa hoje, de fato, discute sobre seu destino. E sempre mais emerge desse debate que é a própria Europa a ser confim - a ser aquele lugar que tem nome, portanto, confim. A Europa deverá se decidir em que sentido, em qual direção perseguir o próprio eschaton. Não poderá, ainda por muito tem- po, “ficar em si”. Isso lhe foi possível após a Segunda Guerra Mundial, constrita entre os dois titãs vencedores, não euro- peus. Mas também aquela época acabou. A Europa definirá seu espaço e, portanto, ela mesma, na medida em que decidirá o próprio confim. Alçar-se-á uma fronteira a Leste e a Sul e mo- verá a Oeste, será elemento e nada mais da globalização- ocidentalização de que falamos. Mover-se-á a Oriente e, contemporaneamente, ao Mediterrâneo, assumirá em si Leste e Sul, poderá ser lugar-e-confim, ser confinis e reconhecer os confins como essenciais à sua idéia. O seu pôr-do-sol no gran- de oceano ocidental seria desaparecer e basta; o seu pôr-do-
sol a Oriente e no Mediterrâneo poderia, ao invés, representar a “invenção” de seu próprio lugar8.
CACCIARI, M. Names of Place: Confines. Revista de Letras, São Paulo, v. 45, n. 1, p. 13 - 22, 2005.
· ABSTRACT: In This article we study the concept of con- fines and its relationship with the present time context.
· KEYWORDS: Confines, globalization, limits, place, space.
8 Isso comportaria que a “globalização” (se o globo não admitir liquidações da polaridade … ) possa se definir com base nos “grandes espaços” cheios de “significados” (Schmitt). Ou a idéia de “grandes espaços” é inexoravelmente conexa à idade dos imperialistas, ou seja, ainda ao passado dos Estados e de suas guerras?